Minhas inspirações do dia-a-dia...
Uma música, um refrão
Uma poesia, uma palavra
Uma imagem, uma fotografia.
devíamos ser alfabetizados em poesia
para a alma aprender a ler mais cedo
ANA PELUSO
(Source: nevver)
—
Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos “nãos” se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos “nãos” se faz um sim
Itamar Assumpção e Alice Ruiz
o arroz
que se planta se colhe
o amor
que se planta se colhe
o que vai
volta um dia mais forte
o que fica
escondido explode
o feijão
que se planta se colhe
solidão
que se planta se colhe
se fugir
a estrada te escolhe
e o destino
também não dá mole
ao redor
pra onde quer que se olhe
a saída
é uma porta que encolhe
aflição
que se planta se colhe
algodão
que se planta se colhe
se cair
nessa chuva se molhe
sempre há sede
pra dar mais um gole
toda culpa
se planta e se colhe
na garupa
do tempo que corre
cada grão
que se planta se colhe
furacão
que se planta se colhe
cada um
inaugura sua prole
pedra dura
procura água mole
tudo vem
quando o tempo é propício
todos têm
sua porção precipício
o que sabe
não busca sentido
o que sobe
retorna caído
ilusão
que se planta se colhe
confusão
que se planta se colhe
num segundo
o desejo te engole
só não corre
esse risco quem morre
Arnaldo Antunes
Peço aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade “minha” desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz daquilo que
ao nos aumentar nos amesquinha.
A vida não tem ensaio mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
Elisa Lucinda

Salvador Dalí
Deixa o coração falar também
Porque ele tem razão demais
Quando se queixa
Então a gente deixa, deixa, deixa, deixa
Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa…
Vinicius de Morais e Baden Powell
das coisas que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros são
aquelas em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?

O nosso mundo
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?
Que importa o mundo, seus orgulhos vãos?
O mundo, amor?
As nossas bocas juntas!
(Florbela Espanca)
NIGHTNIGHT by DEDDY